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A adaptação do ensino da MTC ao Ocidente
Deolinda Fernandes
(co-Directora da ESMTC)
A adaptação do ensino da MTC a estudantes ocidentais levanta algumas questões:
1º - Os estudantes ocidentais desconhecem a cultura chinesa e a MTC está impregnada dessa cultura.
2º - O conhecimento médico chinês provém do empirismo, aliás como qualquer outra ciência médica que reajusta o seu efeito pela experiência e pela experimentação, mas deriva também do pensamento filosófico chinês, a saber, a teoria cosmogónica taoista e o binário yin/yang.
3º - A medicina chinesa é uma ciência que parte de uma axiomatização de raiz dialéctica.
De uma forma muito sucinta podemos expressar aqui os principais axiomas:
· 1º Axioma - o tao é a fonte da vida e da energia do universo.
· 2º Axioma - no início o tao era o caos mas, como nada é imutavelmente eterno, houve um início de organização, onde começaram a surgir todas as coisas que são formadas por yin (matéria) e yang (energia).
Este 2º axioma mostra-nos que o paradigma da MTC é de natureza dialéctica em que existe uma relação dinâmica de oposição, complementaridade, interacção, transformação recíproca e de crescimento e decrescimento alternado. Num corpo humano de boa saúde os dois aspectos opostos do yin e do yang não coexistem de modo pacífico e sem relação de um sobre o outro, ao contrário eles afrontam-se e repelem-se mutuamente. Porém a sua oposição cria um equilíbrio dinâmico e origina o desenvolvimento e a transformação.
4º - A aplicação do pensamento dialéctico à vida só surge depois de uma maturação intelectual apurada e com a operacionalização de funções que o aluno tem de adquirir ao longo dos anos (ver artigo MTC e desenvolvimento cognitivo*). “Enquanto iniciação colectiva e sistematizada a um pensamento do tipo dialéctico, o ensino da MTC, representa um desafio pedagógico sem precedentes”.
O ensino da MTC deve ter uma componente fortemente operatória em que o professor é também um operador, demonstrador experiente, que permite e motiva a integração dos alunos no seu próprio exercício das actividades a serem ensinadas.
Para isso, a planificação das metodologias de ensino deverá incluir algumas características:
1º - A definição de objectivos educacionais, deverá ser feita, também, em termos de estados internos a atingir. Os estados internos visados são as estruturas cognitivas, que consistem em regras para o processamento de informação ou de conhecimentos relacionados. Visa-se, portanto, de forma equilibrada o desenvolvimento das estruturas cognitivas subjacentes à competência, entendida esta como a capacidade de realizar, em condições ideais, determinadas tarefas;
2º - O estabelecimento de objectivos educacionais, num horizonte alargado, que permita tomar em consideração o conjunto do processo de desenvolvimento cognitivo do indivíduo, indo ao seu encontro no ponto de desenvolvimento em que ele está e fornecendo-lhe métodos graduados de desenvolvimento;
3º - Deve ser dedicado um trabalho especial à verificação da efectiva aquisição das necessárias estruturas cognitivas, uma vez que um comportamento pode ser executado por simples imitação, repetido e mantido por acções de reforço, ou por exercícios de memorização, sem qualquer conexão com uma estrutura cognitiva que possibilite o seu exercício autónomo e idóneo.
Todas estas razões contribuem para que, desde há quase dezasseis anos, o corpo docente da ESMTC tenha vindo a descobrir, aplicar e refinar métodos e técnicas de ensino que permitem a adaptação deste à aprendizagem da MTC.
Consultar ainda:
A better teaching/learning contribution of TCM - dialectical thinking applied to “clinical practice of Traditional Chinese Medicine”, Deolinda Fernandes, Ph.D. MTC (Acup. and Tuina)
* Artigo publicado no nº11 da Revista de Medicina Tradicional Chinesa da ESMTC
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